Eudes Mota é um dos mais representativos artistas pernambucanos da contemporaneidade. Representado em Salvador por Fabio Pena Cal, Eudes recentemente ganhou as páginas do jornal Diário de Pernambuco, com matéria especial sobre sua obra.
“Eudes Mota sugere a identificação de nossas raízes sócio-antropológicas. Para isso, contribuem também confessionários, portas antigas recuperadas, casas artificiais de pombos, rifas de venda de fogos de festas juninas que encantaram o imaginário infantil. Embasa a arte de Eudes um misto de provocação e tranquilidade, a primeira refletindo um irrequieto processo criativo e a segunda, a forma cavalheiresca com que se relaciona com o mundo”, disse o jornalista Cleofas Reis.
Leia matéria na integra, a seguir:
A arte de Eudes Mota
Por Cleofas Reis
(Diário de Pernambuco)
É possível não ser familiarizado com a arte plástica contemporânea, mas entendê-la e expressá-la? Penso que a resposta é positiva, conseguindo-se penetrar algo do introspectivo do artista. Há os que facilitam esse processo. Eudes Mota faz esse tipo.
Com um histórico de mais de 40 anos de carreira, passou por várias fases, o que é comum nesse ofício. Seu dom brotou ainda menino, atraído pelas mulatas e carregadores de Portinari, se sensibilizando com o cubismo de Vicente do Rego Monteiro e a produção geométrica de Mondrian e outros abstracionistas.
A Escolinha de Artes, nas Graças, serviu-lhe de laboratório inicial para a combinação infantil mas já indicativa do seu jogo de cores, formas, sombras e luzes. A acomodação desses elementos, porém, não lhe impediu depois manifestação quase heterodoxa à vista dos meios tradicionais de expressividade.
Chegando a um de ponto de bifurcação da caminhada, mesmo já laureado com prêmios e destaque de críticos, Eudes Mota decidiu, podemos dizer até ousadamente, enveredar pelo que ele chama de "arte geométrica conceitual contemporânea". Suas últimas exposições e amostras (estas no seu atelier, na Capunga), dizem da sua criação mais do que quaisquer palavras.
Entretanto, ele alerta que não se tenha essa arte geométrica conceitual como uma escola, motivo por que arrisco a conceituá-la como um estado de espírito. Imagine-se uma iniciativa de se valer de uma página de anúncios classificados de jornal para se produzir algo provocante. Obter o mesmo resultado com base numa folhinha de calendário, auxiliando-se de inexpressivos códigos de barras ou usando a imagem de um tabuleiro de xadrez. Tudo como uma ponte de ligação do observador e a razão de ser da inventiva artística.
A elaboração de Eudes Mota pode nos transportar também a ambientes culturais formadores na nossa nacionalidade, lembrando a obra de Gilberto Freyre, quando nos defrontamos com trabalhos que têm madeira como matéria-prima. Uns, como escumadeiras, sugerem opapel da culinária no relacionamento da casa-grande com a senzala. Já "bandeiras" nos reportam ao componente indígena e até à arte pré-colombiana.
Assim, Eudes Mota sugere a identificação de nossas raízes sócio-antropológicas. Para isso, contribuem também confessionários, portas antigas recuperadas, casas artificiais de pombos, rifas de venda de fogos de festas juninas que encantaram o imaginário infantil. Embasa a arte de Eudes um misto de provocação e tranquilidade, a primeira refletindo um irrequieto processo criativo e a segunda, a forma cavalheiresca com que se relaciona com o mundo. Tanto é que a eventualidade de ter imitadores ele encara filosoficamente estóica: "a arte não é monopólio de ninguém, muito dela se firma na experiência de antecessores."
Publicado em 20/08/2009
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