É ou não um Michelangelo? Essa é a questão em estudo por especialistas em arte depois que o governo italiano investiu 3,3 milhões de euros na compra de um pequeno crucifixo de madeira atribuído ao gênio da Renascença, no ano passado.
Obras de Michelangelo não costumam ser colocadas à venda, mas já houve desenhos que obtiveram valores de até US$ 20 milhões em leilão. Em comparação, o preço do crucifixo, vendido por Giancarlo Gallino, um negociante de antiguidades de Turim, parece uma pechincha. Mas eis a questão. Caso não se trate de um Michelangelo - algo que muitos críticos da aquisição alegam -, o governo pode ter desperdiçado seus minguados recursos na compra de uma obra menor, ainda que atraente, e em meio a uma crise econômica que resultou em corte de mais de um bilhão de euros nas projeções orçamentárias do Ministério da Cultura para os próximos três anos.
O que alimentou ainda mais o debate foi o tratamento cerimonioso dado à aquisição. Definido por funcionários do Ministério da Cultura como "embaixador da cultura italiana junto ao mundo", o crucifixo fez sua estréia pública em dezembro durante uma rara visita do Papa Bento 16. Depois, foi colocado em exibição na Câmara dos Deputados, em Roma, onde atraiu 30 mil visitantes, de acordo com a imprensa italiana, antes de se tornar a peça central de uma exposição promovida pela diocese católica de Trapani, na Sicília. De lá, depois de passar por Palermo, o crucifixo chegou ao Palácio Sforzesco, em Milão, onde está exposto ao lado da Pietá Rondanini, na qual Michelangelo estava trabalhando ao morrer, em 1564.
Existe uma "estratégia política por trás da operação", disse Tomaso Montanari, professor de história da arte na Universidade de Nápoles e autor de diversos editorais em jornais e revistas especializadas nos quais critica a maneira "exagerada e incomum" pela qual a delicada escultura entalhada de 40cm de altura foi alardeada em toda a Itália. A peça não inclui a cruz contra a qual o corpo de um Cristo jovem e esbelto supostamente se apoiaria.
Montanari é apenas um entre os diversos especialistas em arte de todo o país que protestaram contra as ações do ministério e divulgaram uma carta aberta contra o "uso propagandístico" da escultura pelo governo.
"Para nós, a história parecia pouco mais que uma operação de marketing cujo ojetivo é demonstrar ao país que o Ministério da Cultura existe", disse Maurizia Migliorini, professora da Universidade de Gênova que ajudou a redigir a carta. "Mas enquanto isso o patrimônio cultural do país está em urgente necessidade de reparo, o pessoal do ministério ganha mal e as verbas são escassas. O gasto foi alto para uma peça de atribuição dúbia. Talvez tivesse sido melhor gastar esse dinheiro na restauração de alguma coisa ou para manter aberto um museu que enfrenta dificuldades."
Os promotores do Serviço Nacional de Auditoria italiano estão estudando a aquisição a fim de determinar se o Estado pagou demais, e especialistas em arte da Renascença serão consultados para determinar se a peça é ou não um Michelangelo.
Muitos já se pronunciaram. "A atribuição desonra Michelangelo e a história de Florença no século 15, onde existia ao menos uma dúzia de artesãos capazes de produzir um crucifixo da mesma qualidade", diz Francesco Caglioti, especialista em escultura renascentista, que acredita que o crucifixo seja um produto típico de um desses ateliês, e que valha cerca de 100 mil euros. "Infelizmente meus colegas se esqueceram disso, e sempre que surge algo de belo o atribuem a um nome famoso. Parece que tudo que foi feito na Florença do Renascimento pode ser atribuído a 10 pessoas de mil mãos." Quando o marchand Gallino ofereceu o crucifixo para exposição na Casa Buonarroti, o museu florentino dedicado a Michelangelo, há alguns anos, o conselho recusou a peça. Luciano Berti, então presidente da fundação que administra o museu, "considerou que era uma bela peça, mas não de Michelangelo", disse Pina Ragioneri, hoje diretora da instituição. Não existem documentos que vinculem o crucifixo a Michelangelo, e os biógrafos contemporâneos do artista, Ascanio Condivi e Giorgio Vasari, não mencionam que tenha produzido trabalhos de pequena escala em madeira.
Os defensores da atribuição, entre eles Giancarlo Gentilini, especialista em arte florentina, Cristina Acidini Luchinat, superintendente dos museus estatais de Florença, e Antonio Paolucci, diretor dos museus do Vaticano, acreditam que o crucifixo tenha sido produzido por volta de 1495, quando Michelangelo tinha cerca de 20 anos, e apontam para sua semelhança com outros trabalhos da era.
A execução demonstra domínio firme da anatomia humana. Vasari, que escreveu uma biografia de Michelangelo no século 16, conta que o artista "muitas vezes estudava cadáveres para descobrir os segredos da anatomia". "Para sobreviver, um jovem artista teria de produzir trabalhos desse tipo", diz Gentilini. "Não se pode associar Michelangelo apenas a obras-primas."Publicado em 26/04/2009
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